Termas de Castelo de Vide

Abandonado desde os anos 90 do século passado, o edifício que até então e desde 1942 albergava o balneário das Termas de Castelo de Vide, parte indelével da memória coletiva dos castelovidenses do último século, será agora transformado num centro de estudo sobre a obra do médico e botânico Garcia de Orta, com o intuito de valorização da identidade judaica portuguesa e, previsivelmente, num museu da inquisição.

Nada havendo a dizer sobre a urgente necessidade de recuperação deste imóvel central da malha urbana medieval da vila, exceto pelo tardio, muito haverá sobre esta sua futura utilização – da qual nada se sabe em concreto – e sobre o usufruto do espaço pela população.

Tendo Castelo de Vide uma série de núcleos museológicos falhados, fechados sem justificação pública (Sagrado e Profano, Megalitismo, Fortificações Militares), além do já mítico Museu Salgueiro Maia, constantemente anunciado mas nunca concretizado, e considerando a falta de equipamentos públicos que promovam o sentimento de pertença comunitário aos que aqui vivem e aos que de cá são, estranha-se a devoção e priorização por parte da autarquia a esta temática de nicho, já sobejamente representada na musealização da Sinagoga Medieval, que inclui em si um espaço dedicado a acolher estudiosos do tema que aqui queiram desenvolver investigação.

 

Sobre as Termas de Castelo de Vide, in http://www.aguas.ics.ul.pt/portalegre_fvila.html

Indicações

Diabetes, afecções hepatovesiculares, hipertensão, doenças da pele tópicas, colites, litíase renal, anemias hipocrónicas, afecções ginecológicas (cf. Anuário 1963).

Tratamentos/ caracterização de utentes

Actualmente as termas estão desactivadas.
Os tratamentos praticados no balneário eram os banhos de imersão, duche escocês, duche subaquático, duche filiforme, duche de chuveiro, perineal, colar e telefone, banho carbogasoso, enteroclises, irrigações vaginais secas e irrigações nasais (cf.Anuário 1963).

O tratamento por ingestão de água foi sobretudo aplicado em diabetes e doenças vesiculares. Amaro de Almeida, que foi director clínico destas termas na década de 1950, publicou em 1962 o estudo “O valor actual da Crenoterapia na Diabetes”.

Instalações/ património construído e ambiental

A Fonte da Vila definiu a urbanização nordeste de Castelo de Vide. A Judiaria cresceu desde das muralhas do castelo até ao espaço definido pela sua nascente, num declive de ruelas acentuadas que terminam na praça, onde ao centro se ergue um fontanário do século XVI, trabalhado em bons mármores alentejanos.
Em 1940 iniciaram-se os estudos geo-hidrológicos que precederam as obras de novas captagens da nascente e construção do balneário. No tecido urbano medieval da vila foi construído um sistema de esgotos. Toda a zona foi escavada para novas captações e coberta por uma placa de cimento sobre o qual se assentou um isolamento, e por fim o pavimento urbano. A partir destas obras a Fonte da Vila passou a receber água de distribuição municipal (que aliás é de óptima qualidade) e todo o seu caudal, que era então de 2800 l/h, foi desviado para o balneário.
O projecto arquitectónico dos balneários é dos arquitectos Ernesto e Camilo Korrodi. Contava com uma buvete, quatro quartos de banho para homens e quatro para mulheres, e ainda cabines para duches e outros tratamentos.
Actualmente estas instalações estão em estado de abandono, e a câmara tem projectada a construção de um novo centro termal, em terrenos anexos à Fonte da Mealhada.

O edifício dos irmãos Korrodi é um exemplo da arquitectura pública do Estado Novo, incluída na estética cenográfica destes arquitectos, de volumetria e área pequena, ao gosto “cenário de uma casa portuguesa alentejana”, de boa construção. Ainda hoje se conserva em bom estado, mas inexplicavelmente abandonado, correndo a água nas hortas do outro lado da rua que delimita a vila. O edifício não servirá para as funções termais de lazer e medicinais desta água sobretudo empregue em tratamentos internos, mas com certeza daria para um óptimo restaurante ou bar de águas, nesta vila onde as águas e o turismo são as maiores riquezas municipais.

Natureza

Bicarbonatada, nitratada, sódica, cálcica magnésica (análise de 1987/06/30)

 Alvará de concessão

1920 – Diário do Governo, n.º 251, II série, de 10/11 – Concessão da Fonte da Vila
1925 – Diário do Governo, n.º 75, II série, de 31/3 – Transmissão da concessão da Fonte da Vila

1944 – Diário do Governo, n.º 74, III série, de 30/3 – Transmissão da concessão da Fonte da Vila a favor da Empresa de Águas Alcalinas Medicinais de Castelo de Vide.

Historial

Na “Corografia Portuguesa” (1706, II: 562) é curta a referência a esta fonte “de excelente água dentro dos muros, e no arrabalde outra, que chamam da Mealhada com excelência de que os que nela costumam beber, são isentos de dor nefriticas”. O Aquilégio (1726) só menciona a fonte da Mealhada, repetindo a notícia da “Corografia”.
A Gazeta de Lisboa, n.º 1, de 1756, noticia que a 1 de Novembro de 1755, entre as 9 e 10 h, se sentiu em Castelo de Vide o terramoto, durante o qual a Fonte da Vila cessou de correr e depois lançou água turva e a da Mealhada ficou correndo com maior quantidade.
O interesse pela aplicação terapêutica das fontes só terá começado no princípio do século XX. Em 1918 as suas águas foram analisadas por Charles Lepierre, que as classificou como mesossalinas, cloretadas sódicas, sulfo-carbonatadas, alcalina-terrosas. Nesta ocasião foi também estudada a captação da nascente.
Depois dos trabalhos para novas captações e construção do balneário, o edifício termal foi terminado em 1942. Nesse ano terá trabalhado em fase experimental, como se deduz dos valores apresentados por Acciaiuoli (1947: 179): 149 aquistas e 60 banhos, ou seja, com a ingestão de água como principal tratamento.
No Anuário (1963) são apresentadas três fotografias do balneário: o vestíbulo, num pátio em larga varanda em arcos aberta sobre a paisagem; a buvete, no mesmo pátio; uma outra fotografia mostra a inserção do edifício no tecido urbano.
Foi neste cenário que o médico Amaro de Almeida fez a sua experiência como director clínico de termas, cremos que única na sua carreira como hidrologista, entre os anos de 1956 a 1962, dedicando-se posteriormente aos levantamentos hidrológicos do território nacional.
Nesse período escreveu e publicou os seguintes estudos: “Lugar de Director Clínico – achega para uma reforma legislativa (1956); “Os novos rumos da investigação Hidrológica” (1957); e “O valor actual da Crenoterapia na Diabetes” (1962). Estes três trabalhos reflectem os seus interesses e preocupações como investigador e director clínico termal, tanto a nível de reformas legislativas necessárias, como de reflexão sobre métodos de investigação da hidrologia médica: “Se estão postas, empiricamente, as indicações terapêuticas das Águas não devemos tomar atitudes extremas. Nem acreditar que o empírico não é científico e que portanto, está errado, nem aceitar integralmente o que o empirismo ensina sem alguma coisa fazermos para o confirmar […] Não há que procurar o «quid divino» da Água na tripinha do rato sem tentar averiguar, por exemplo, se uma determinada água sulfúrea é mais eficaz nas formas vertebrais reumáticas ou noutras formas articulares […] A investigação hidrológica tem que estar ligada a um plano de assistência para se dispor de hospitais devidamente apetrechados nas estâncias balneares.” (1957: 12).
Se os dois primeiros estudos são generalistas, no terceiro a reflexão recai sobre uma doença específica, a diabetes, e sua cura com as águas de Castelo de Vide.
À falta de um hospital termal onde pudesse observar os doentes, recorreu a 43 “doentes hospitalizados no Departamento Termal do Hospital da Misericórdia”, que usaram estas águas combinadas com insulina e antidiabéticos, formando quatro grupos conforme o tratamento: A – Só ingestão de água; B – Ingestão de água e antidiabéticos orais; C – Ingestão de água e injecções de insulina; D – Um grupo que fez um tratamento misto.
Para os quatro grupos os valores das análises das glicemias e das glicosurias, antes e depois do tratamento, tinham diminuído substancialmente, concluindo-se que “a cura termal de Castelo de Vide é notavelmente benéfica para o diabético, baixando-lhe o açúcar no sangue e na urina e reduzindo a sua necessidade de insulina”.

As termas de Castelo de Vide encerraram no início da década de 90, por “inquinação das águas”, segundo vários informantes. Mas será mais credível que o seu encerramento seja fruto de uma gestão termal ultrapassada de uma água mineral que pela sua natureza é sobretudo para ingestão.

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