Fadagosa Maria Viegas, do Pereiro ou ainda do Marvão

IMG_6424A primeira referência a esta nascente é resultante dos Quesitos Pombalinos de 1758.

IMG_6436 Acciaiuoli (1944, IV: 140) relata a descoberta de uma pedra com uma inscrição: “Feita à custa do concelho, sendo Juiz de fora, o Dr. José Tomaz Miranda e Costa, no ano de 1780”. Segundo este autor, essa pedra “adapta-se à superfície superior de um capitel que está ligado à arca da fonte”.

A mesma denominação é usada por Tavares (1810,157), que descreve o que existia à época como equipamento balneário: “No lugar da nascente tem os achacados das úlceras de pernas e de sarnas feito um poço pouco profundo a seu grado, de duas vargas até doze palmos de diâmetro, onde se mergulham e banham as chagas e o corpo todo, sem mais cautelas; o que não obstante conseguem alivio, e por isso continuam nesta prática, ainda que menos segura.”

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Ligado a esta nascente, surge a seguir na ordem cronológica uma personagem da História de Portugal, José Xavier Mouzinho da Silveira (1780-1849), natural de Castelo de Vide.

Em 1840, Mouzinho da Silveira retirou-se da vida pública e passou só a tratar dos seus negócios. No seu vasto património contava-se uma herdade no Crato e 12 tapadas no concelho de Marvão, que incluíam três povoações – Valverde, Volta do Ribeiro e Pereiro, além de quintas e fazendas nos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Nisa.

Ao seu património na Tapada do Pereiro juntou os terrenos comprados em volta da nascente da Fadagosa, possivelmente com a intenção de aí construir um estabelecimento termal. Mas os terrenos da nascente continuaram a pertencer a Joaquim Vicente Mouzinho, possivelmente filho do coronel Mouzinho, autor da primeira análise destas águas. Falecido em 1842 os seus herdeiros tornaram as nascentes públicas, por vontade testamental, doando 8 contos de reis à Câmara na condição de metade ser utilizado na construção de um abrigo para os pobres que buscavam as águas da Fadagosa.

Mouzinho da Silveira reclamou contra o Decreto de 1843 que reconheceu como pública a Fadagosa do Pereiro, considerando que os herdeiros queriam “vexar” a sua propriedade, excluindo-o da prioridade de exploração da água, mas os seus protestos nunca foram aceites.

Em 1873 a Câmara de Marvão elaborou um projecto para reedificação de balneários sobre as parcas construções existentes, mas o projecto nunca se concretizou.

Em 1885 todas as construções estavam em ruínas, e a Fadagosa foi posta em hasta pública por deliberação camarária, tornando-se proprietário Matos Magalhães.

IMG_6447No ano seguinte começavam as obras do novo balneário. Inauguradas dois anos depois, as termas contavam com 17 banheiras de 1ª classe, 17 de 2ª classe e 40 de 3ª classe. Este balneário seria classificado por Lopes (1892: 293) como “um regular estabelecimento balnear com hotel, junto às ruínas de um outro mais antigo, que a tradição atribui ao tempo dos romanos, do qual ultimamente só restava um poço de 12 palmos de profundidade onde se tomava banhos. No actual balneário muito frequentado por portugueses e espanhóis, há bastantes tinas de mármore colocadas em quartos apropriados, tinas portáteis de zinco e aparelhos para banhos de chuva ”. Quanto às indicações terapêuticas, Lopes (1892) considerava-as úteis, tanto ingeridas como por banho, no tratamento do reumatismo e de doenças cutâneas “e ainda da gota, ankiloses, úlceras e escrofulismo.”

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Em 1893 foi feito o reconhecimento do local pelo engenheiro Orey, para o processo de pedido de concessão que a Lei de Setembro de 1892 tornava obrigatório. O inspector descreve a história das termas, referindo mais uma vez a suposta fundação romana, e a geologia do terreno, numa linha de contacto entre o granito e xisto: “É exactamente neste contacto de um desses filões com o xisto que tem origem a fonte de água sulfúrea.”
Quanto ao balneário, dividia-se em três classes, “todas com banheiras em pedra”, mas uma destas banheiras era reservada para“doentes morféticos e outras doenças asquerosas, cabendo aqui mencionar que, segundo me asseverou o proprietário, já aqui se deram dois caos de cura daquela terrível moléstia” . Quanto a alojamento, a capacidade era de 120 a 150, em quartos de várias categorias, e contava ainda com sala de bilhar e restaurante.

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O médico inspector Tenreiro Sarzedas, no relatório referente ao ano 1902 critica o hotel, que se encontrava num piso superior ao balneário, e propõe que “seria de grande vantagem para os frequentadores e a própria estancia que o hotel fosse dali removido, utilizando o primeiro andar, em que está, na ampliação das instalações que o seu proprietário está disposto a fazer”.
O mesmo médico fez nova inspecção às termas em 1906, denominando-as a partir dai de Fadagosa do Marvão. Este relatório é elogioso para a estância balnear e para as várias melhorias introduzidas no edifício do balneário. Embora os quartos de 1ª classe continuassem sobre o balneário, a separar os dois pisos havia, em vez da antiga divisão em madeira, “umas consistentes abobadas, que isolam por completo e defendem reciprocamente o balneário e o hotel”. A aquisição de uma nova caldeira produtora de vapor permitiu iniciar tratamentos por inalações. Por último, a construção de outros dois edifícios separados, destinados a hotel um com quartos de 2ª e o outro com quartos de 3ª classe, tinha para o inspector como maior vantagem: “Assim, obsta-se à promiscuidade da clientela da estância, o que sempre de apreciar, e em geral se não vê proporcionado na maior parte das nossas estancias thermaes.”

A frequência termal era então de 500 aquistas, na maioria espanhóis.

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Na vistoria de 1923 “foi verificado que se encontrava fechado o balneário desde 1921 e quasi desprezado. 

Em 1942, a concessão foi transmitida para João Nunes Sequeira, mas a exploração continuou precária e o número de aquistas nos anos seguintes não ultrapassava as três dezenas. Assim deve ter continuado até finais da década de 1950.

Em 1971 as termas foram declaradas abandonadas, e o que resta da Fadagosa Maria Viegas, do Pereiro ou ainda do Marvão, assim como os antigos jardins, é património classificado que aguarda obras de recuperação.

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in http://www.aguas.ics.ul.pt/ (editado)

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