Lançamento da BUM – Galeria Impressa

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Galeria de Arte itinerante, a BUM é uma plataforma de apoio à produção e divulgação do trabalho artístico independente em Portugal que pretende incentivar a criatividade e marcar a diferença na promoção de artistas emergentes nacionais.

Apoiada no conceito de residência artística, cada edição é uma obra exclusiva e original, fruto do trabalho de artistas que, com base num tema específico, criam com e para a revista. A BUM materializa o desejo de valorizar o acto criativo, incentivar novas formas de pensar, criar e intervir, numa publicação que foge ao conceito de revista tradicional e que quer estabelecer uma relação directa entre os artistas e o público.

A primeira edição da BUM guarda espaços num tempo específico e reflecte sobre eles num mesmo suporte com diferentes linguagens. Foi apresentada no DNA Lisboa a 28 de Fevereiro de 2014, com a exposição de 5 peças originais dos artistas Inês Prats, Miguel Lopes, Pedro Freitas, Pedro Sousa e Sérgio Azevedo criadas em diálogo com o espaço expositivo e uma performance site specific de Marta Abreu.


“Restituição”
Sérgio Azevedo

“Restituição” materializa a relação entre os desenhos que apresento no formato impresso da BUM e a sua transposição para um espaço real.
Com base no tema Espaço-Tempo, trago para a revista questões que se ligam com a arquitectura e a sua relação com o tempo, com o uso ou perda da sua função. Quando esta entra em estado de degradação e, consequentemente, se afasta das suas funções específicas de habitabilidade, aproxima-se daquilo que é a essência da escultura enquanto corpo sensível, detentor de uma poética própria que, neste caso particular, se materializa através daquilo que já lá não está, daquilo que já não contém. Se, enquanto artista plástico, penso sobre esse objeto e nele intervenho, apropriando-me das suas directrizes arquitectónicas, talvez esteja a resgatar a ruína para o campo da arte, atribuindo-lhe significado simbólico.
Nesta sala, onde ainda encontramos vestígios da Sede do Sindicato dos Professores, instalo uma peça que repõe o espaço daquilo que deverá ter sido um dos gabinetes sindicalistas. Recriando e redimensionando a área desse espaço de trabalho a partir de um objecto escultórico, convoco para a obra final o espaço de toda a sala e as ruínas dos antigos escritórios, ainda visíveis. O plano de cor remete ao desenho de planta de arquitecto, que distingue os diferentes espaços de um edifício. Permanece como uma pintura, restabelecendo à escala real essa relação com o desenho de projecto.
À semelhança dos desenhos que tenho vindo a desenvolver e a partir dos quais produzi o trabalho apresentado na BUM – Galeria Impressa, esta pintura habita um espaço arquitectónico, boiando no seu interior e permitindo assim que os vestígios da construção original se constituam como guias que lá permanecem e se evidenciam como parte integrante da obra.


“24horas o tempo de um dia”
Marta Abreu

A questão do espaço-tempo dá pano para mangas e não limita quase nada em termos de possibilidades criativas.
O que até pode ser bom.
O problema é que eu não tenho tido tempo nenhum.
Por isso mesmo optei por falar na primeira pessoa e cingir-me a mim própria enquanto possibilidade artística.
O que até nem está muito longe daquilo que tenho feito de mais significativo na minha vida enquanto performer.
Para mim este é o momento para me manifestar frente a frente com aqueles que aqui se juntam e que de alguma forma partilham as nossas ambições e de certa forma as sustentam.
Não há tempo neste momento por que passamos, para coisas efémeras como a arte ou a criatividade. Isso aliás não é nada. Para que servem estas disciplinas na vida de um ser humano que se quer produtivo, gerador de riqueza, contribuinte para a máquina que é afinal, a vida, o Estado, Nós.
Talvez consiga perceber tudo isto e senti-lo na pele como sol que queima na praia à beira-mar. Por mais que me proteja queima sempre. E não consigo ajudar os outros. SALVE-SE QUEM PUDER!! lá dizia o Ionesco em Rhinocéros. “We don’t need another hero” Barbara Kruger e os outros todos que começaram no surrealismo ou no dadaísmo tentando manter acesa e democrática a relação com a arte, com as sensações com o nosso “inner self”.
Inovámos? Regressámos?
Alugamos as nossas casas, vendemos o nosso tempo a preço de quase nada, fugimos dos pagamentos obrigatórios, tentamos sobreviver. Esquecemo-nos de quem somos e de quem quisemos ser.
Não consigo calar essa ideia que um dia tive de mim.
Isso faz-me gostar de viver.
Estou sem tempo, resta-me fazer.


Inês Prats

“Picar o ponto”
Marcação do tempo e a passagem de cada um por este espaço.
Os espectadores activos decidem o tempo que perdem, o tempo que demoram, o tempo que escolhem passar aqui e vão dando forma à peça.
Definem-se momentos. Cada um fica o tempo que ficar, mas cumpre a sua obrigação: vem picar o ponto.

“Take your time”
Propõe o acesso à memória física de um lugar com tantas camadas de histórias, que termina mais um ciclo. A possibilidade de guardar em matéria, o invisível mas que tanto tem para contar, e de guardar memórias que, em breve, serão apenas isso.


“quem semeia homens-planta…”
Pedro Freitas

A união entre vegetal e animal num ser embrionário metamorfoseado, cíclico, desde a concepção, o nascimento, a morte. A germinação do hipocótilo com raízes apenas aqui escritas e folhas não desenhadas, funcionam como suporte para o lápis e para a esferográfica. Ao rebento dá-se o nome de homem-planta. A cria é criação do criador de redundâncias. A nudez assexuada é controlada pela mão trémula desse criador. Os homens-planta têm deuses?
Como esboço que é, o homem-planta, ou planta-homem, vive na sombra a sua curta existência, cego, surdo e mudo. O desenvolvimento da cegueira é alimentado pela surdez do mutismo, interrompido pela escrita. Repete-se até à exaustão um conceito ultrapassado cheio de enumerações vocabulares. A importância de se tornar animal quando se é vegetal. Chamam-lhe o feijão humano, prisioneiro no seu curto e ainda assim infinito ciclo de vida, dividido em três moldes espácio-temporais.
O primeiro é o tempo-espaço estático de cada quadro. Refere-se à forma individual e solitária que um desenho possui, a cada um de vários homem-planta congelados num momento, em diferentes estágios. Embora nos rectângulos esteja representado o mesmo ser, este não tem consciência de nada além de si próprio num determinado instante.
O segundo molde é em forma de mosaico, no qual o homem-planta se multiplica no plano horizontal. À semelhança da primeira forma, o indivíduo não tem consciência de nada extrínseco a si mesmo, tal como os seus alter-egos, num espaço paralelo e multidimensional. Cada quadro mantém a sua independência e a ligação é feita por seres exteriores a eles próprios.
O terceiro resulta da criação de uma sequência dos diferentes quadros, cada um prolongado por um pequeno período, iniciando-se o movimento. A dinamização do tempo torna o espaço, antes físico, virtual. Estes seres ganham a percepção deles próprios nesta dimensão. Até aqui, são formas inanimadas, sem sentido nem contexto, amargurados pela impressão inata e inconsciente de estarem incompletos.
A vida destes organismos é atormentada, presa em quadros, vivendo e morrendo, e renascendo num tempo diminuto que se repete. O seu criador é pérfido. Pretende que sejam anulados por separação, mesmo na sua dimensão mais segura, a de seres latentes num instante, contando que fragmentos-chave sejam roubados e se crie um abismo entre os semelhantes interdimensionais. Prevê-se implosão da realidade. Aspira-se que atinjam a loucura. No momento em que o homem-planta consciencializa a sua existência e se apercebe que é refém de um pequeno quadrado branco começa a fuga. Esta tentativa de abandonar o centro do quadro faz com que volte ao início, num castigo infernal. O homem-planta está fadado a querer evadir-se no segundo em que ganha consciência, ignorando que essa acção causará o seu desaparecimento e consequente germinação num ciclo interminável. A punição por querer abandonar o espaço é ficar eternamente preso nele. O homem-planta só é livre quando não tem noção dele próprio.
Que colhe quem semeia homens-planta?
Colhe ervas daninhas, pragas, doenças, parasitas, vírus e pestes…


“Não são verdes, são rosas.”
Miguel Lopes

Na imagem é visível uma parede iluminada por uma janela. A parede assume determinadas tonalidades consoante a hora do dia que influenciam o observador e lhe imprimem diferentes estados de espírito.


“A Song for true: Performance for Plural Larynx”
Pedro Sousa

Usando como inspiração Jerry True, um saxofonista americano que usou um compressor de ar para poder tocar saxofone devido a um cancro de garganta, esta composição baseia-se na experimentação do saxofone como um meio não usual para a criação de música drone. Explora as características acústicas, microtonais e reverberantes que definem estes instrumentos de sopro.

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