coin sorter

a beatriz foi ontem absolvida do pecado original por vontade dos pais, 9 dias depois de completar 2 anos de idade e no dia em que o pai comemorou 34.
fez no natal passado um ano que, na véspera de natal à tardinha, fui ter com o cónego da paróquia onde fui batizado à revelia com a intenção de lhe entregar um pedido de apostasia.
o sacerdote, formado especialista em direito canónico pelos seus pares, usou como primeira abordagem na resposta ao meu pedido a via da ignorância perguntando mesmo “mas o que é isso?”. 
provado que eu sabia o que era e que tinha bases para o que estava a pedir, deferiu o pedido de recepção da missiva renegando a fé católica sem nunca me olhar nos olhos nem se chegar perto de mim. apontou para a mesa da sacristia da igreja matriz de nossa senhora da devesa de castelo de vide e disse: “deixe aí”. assim fiz, pedindo ainda prazo para resposta. “que isso são coisas que demoram, que tem de ir ao bispo, que há-de demorar, que vá passando por cá”. 
vivo do outro lado do país. quando lá vou é para ver a família, os amigos, ouvir os passarinhos de manhã e cheirar as tílias em flor. já que demora, que demore. a sensação de ter feito o pedido foi de tal forma enriquecedora, que esperar não me afeta.
quando os pais da beatriz a resolveram batizar, os tios foram a escolha natural para padrinhos.
resolvida a questão do porque é que eu não posso desempenhar esse papel nesses moldes, resolveu-se que o meu pai assinaria o livro de batismo mas que o padrinho seria eu. assim foi logo ao almoço que se seguiu, onde tive que explicar a boa parte dos convidados a razão da situação.
nas reuniões preparatórias obrigatórias para este tipo de evento, o tal sacerdote fez questão de mencionar à minha família a enormidade que eu tinha cometido, talvez achando que não soubessem e me fizessem mudar de ideias. disse que até já tinha uma resposta escrita mas que nunca a tinham enviado. e que se a queria teria de ir falar com ele.
na última dessas reuniões perguntou se não havia mais dúvidas sobre o processo prestes a ser encetado e como ninguém se manifestasse ajudou com a pergunta “nem sobre o preço?”. o preço afinal não existe, a resposta à pergunta é “cada um dá o que quer”.
criança batizada, satanás renunciado, pecado absolvido, gente feliz a sair da igreja pela porta da frente para a fotografia de grupo e sinos a tocar. 
estarão já quase trinta graus e mal passa do meio dia quando, envergando o blazer listado em vermelho, azul e branco que tinha escolhido para a ocasião, entrei na sacristia.
antes, “padrinhos”, pais e testemunhas tinham lá estado a assinar o livro de assento, tendo sido cordialmente recebidos por dois envelopes brancos vazios que, curiosamente, serviam de marcadores de página. mas a minha comadre levava o seu próprio envelope, em rosa pink money.
perguntei-lhe se se lembrava de mim, disse que sim, dançámos um bocado, perguntei pela resposta, disse que a tinha, mas em casa, pedi para ma enviar, perguntei se era já o livro riscado ou outro tipo de resposta. que não, que as coisas não eram bem assim, que isto demora tempo, que você precisa de cá trazer duas testemunhas que atestem que está certo daquilo que está a pedir. ofereço-me para ir já buscar os meus pais, que já se acostumaram à ideia. diz que não, que o senhor bispo diz que se calhar até é preciso que um médico o veja, que você é capaz de não estar bom da cabeça.
este parágrafo dramático serve de ilustração aos dez segundos que contei antes dar uma gargalhada, única resposta possível à grave falta cometida pelo homem de deus. podia ter-lhe dito que sou psicólogo e que me atestaria a mim próprio, podia ter pedido para marcar a consulta e que lhe enviaria a conta, podia tê-lo mandado levar no cu.
ri-me. e perguntei se me enviava a resposta por correio, que lhe deixava a minha morada, que podia ser à cobrança.
disse que sim e apontou, do lado oposto da sala em relação a mim onde se encontrava, para a mesa da sacristia da igreja matriz de nossa senhora da devesa de castelo de vide e disse: “aponte aí”.
cheguei-me à mesa, peguei numa esferográfica e procurei um bloco de notas, uma folha limpa ou qualquer outra coisa para onde fosse possível aquele dedo estar a apontar mas não vi nada,  a não ser o envelope cor de rosa, que de qualquer maneira era meu. assim tenho pelo menos a certeza que quando for contar o saque terá de dar de caras comigo outra vez.
na sacristia da igreja matriz de nossa senhora da devesa de castelo de vide a máquina de contar moedas tem lugar de destaque.

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